Que havia, pois,
mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio,
do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o
desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos
de ontem. Ser só abertura para amanhã. A vida real não eram as leis dos
outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade
para o furor de uma plenitude solitária. O absoluto da vida, a resposta
fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na
união total com nós mesmos, com as forças derradeiras que nos trazem de
pé e são nós e exigem realizar-se até ao esgotamento. Este «eu»
solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode
conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse «eu» e a sua
descoberta, se o condenamos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é
dar-lhe razão. Que ignore isso o que ignora que é. Que o
despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal. Mas quem teve a
dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional?
Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuitidade deste milagre de sermos. Que ao menos nós lhe demos, a isso
que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim. Gritar aos astros até
enrouquecermos. Iluminarmos a brasa que vive em nós até nos
consumirmos. Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do
fantástico que nos habita. Somos cães, ratos, escaravelhos com
consciência? Que essa consciência esgote até às fezes a nossa condição
de escaravelhos.
Vergílio Ferreira, in 'Aparição (discurso da personagem Sofia)'
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
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